
Menopausa e Saúde do Coração: o que muda depois dos 40?
Por muito tempo, as conversas sobre menopausa ficaram concentradas em ondas de calor, sono, humor e mudanças no ciclo menstrual.
O coração nem sempre entrava nessa lista.
Hoje sabemos que a transição menopáusica também coincide com mudanças importantes em fatores ligados à saúde cardiovascular. Colesterol, distribuição de gordura corporal e características dos vasos podem se modificar durante esse período. Isso ajuda a explicar por que a relação entre menopausa e risco cardiovascular passou a receber mais atenção científica.
Mas existe um cuidado essencial: observar mudanças em fatores de risco não significa concluir que a menopausa, sozinha, “causa doença cardíaca”.
Entender essa diferença deixa a conversa menos alarmista e muito mais útil.
Em resumo
A transição menopáusica é considerada um período importante para observar a saúde cardiovascular. Estudos identificam mudanças em lipídios, composição corporal e saúde vascular durante essa fase, mas envelhecimento, histórico familiar, pressão arterial, metabolismo, hábitos e outras condições também participam do risco. Marcadores como colesterol ou rigidez arterial ajudam a compreender esse cenário, mas não equivalem a infarto, AVC ou outro evento cardiovascular.
Menopausa aumenta o risco cardiovascular?
A resposta mais adequada é: a transição menopáusica está associada a uma aceleração de diferentes fatores relacionados ao risco cardiovascular, mas essa relação não pode ser reduzida a uma única causa.
A declaração científica da American Heart Association publicada em 2020 reuniu evidências de estudos longitudinais que acompanharam mulheres ao longo da transição menopáusica. Esses trabalhos permitiram distinguir melhor mudanças relacionadas ao envelhecimento cronológico daquelas que parecem acompanhar mais diretamente a transição reprodutiva.
Os pesquisadores observaram alterações desfavoráveis em diferentes dimensões, incluindo composição corporal, lipídios e lipoproteínas e medidas de saúde vascular.
Por isso, a AHA descreve a transição menopáusica como um período de maior vulnerabilidade cardiometabólica e uma oportunidade importante para prestar atenção à saúde cardiovascular ao longo da meia-idade.
A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024 também coloca esse tema dentro de uma abordagem específica para a saúde da mulher, reforçando que climatério, menopausa e risco cardiovascular precisam ser analisados dentro do conjunto de características clínicas e do histórico individual.
Isso é bem diferente de dizer:
“Entrou na menopausa, então terá doença cardiovascular.”
A experiência e o risco não são iguais para todas as mulheres.
Se você ainda está tentando compreender quando essa transição começa e quais mudanças podem aparecer, vale conhecer também nosso conteúdo sobre sintomas da perimenopausa.
O que pode mudar durante a transição menopáusica?
Quando se fala em menopausa e saúde cardiovascular, não estamos falando de uma única alteração.
A literatura acompanha diferentes marcadores e características do organismo ao longo desse período.
Colesterol e lipoproteínas
Um dos pontos mais estudados são os lipídios e as lipoproteínas que circulam no sangue.
Dados resumidos pela AHA indicam aumento de LDL-colesterol durante a meia-idade e mudanças em outras partículas lipoproteicas ao longo da transição menopáusica.
Até mesmo a interpretação do HDL pode exigir mais nuance.
O HDL costuma ser chamado de “bom colesterol”, mas pesquisas acompanhando mulheres durante a transição sugerem que valores mais altos de HDL-C nem sempre representam da mesma forma uma condição cardiovascular favorável em todos os momentos da vida.
Isso mostra por que um único número raramente conta toda a história.
O perfil cardiovascular precisa ser interpretado no contexto da mulher, junto de outros fatores e de sua evolução ao longo do tempo.
Gordura abdominal e composição corporal
Outro aspecto importante é onde a gordura corporal está distribuída, e não apenas quanto uma pessoa pesa.
A declaração da AHA destaca que o aumento de gordura visceral abdominal se torna mais pronunciado durante a transição menopáusica.
Um estudo do SWAN Heart acompanhou 362 mulheres e encontrou uma aceleração no acúmulo de gordura visceral começando aproximadamente dois anos antes da última menstruação. Nesse estudo, maior acúmulo de gordura visceral durante determinado período também esteve associado a uma medida de aterosclerose subclínica na artéria carótida.
É importante perceber a linguagem usada aqui.
Os pesquisadores observaram uma associação com um marcador subclínico.
Isso não significa que ganhar gordura abdominal durante a menopausa produza inevitavelmente um evento cardiovascular.
É justamente esse tipo de diferença que precisamos preservar ao interpretar estudos sobre menopausa e risco cardiovascular.
Saúde vascular e rigidez arterial
As artérias não são estruturas rígidas. Elas precisam se expandir e se adaptar ao fluxo de sangue.
Uma das formas utilizadas em pesquisa para estudar essa característica é a velocidade da onda de pulso, que funciona como marcador de rigidez arterial.
No SWAN Heart Study, pesquisadores acompanharam 339 mulheres e observaram uma aceleração da rigidez arterial no período próximo à última menstruação. Parte da mudança foi explicada por outros fatores cardiovasculares, mas não toda.
Esses resultados ajudam a entender por que saúde vascular aparece com frequência na discussão sobre menopausa e coração.
Mas rigidez arterial continua sendo um marcador intermediário. Ela não é sinônimo de infarto, AVC ou diagnóstico de doença cardiovascular.
Associação, marcador e desfecho não são a mesma coisa
Essa distinção talvez seja a parte mais importante deste artigo.
Em conteúdos de saúde, três conceitos diferentes frequentemente aparecem como se fossem equivalentes:
Associação significa que duas características aparecem relacionadas em uma pesquisa. Isso não demonstra automaticamente que uma provoque a outra.
Marcador intermediário é uma medida relacionada a determinado processo ou risco. LDL-colesterol, gordura visceral, calcificação vascular e rigidez arterial podem ser estudados dessa forma em diferentes contextos.
Desfecho clínico é o evento que acontece de fato, como infarto do miocárdio ou AVC.
Por exemplo, um estudo pode mostrar que determinada intervenção modifica uma medida de rigidez arterial.
Isso não autoriza concluir, sem estudos adequados de desfechos clínicos, que a intervenção previne infartos ou reduz mortalidade.
Da mesma forma, encontrar alterações cardiometabólicas durante a transição menopáusica não significa que todas as mulheres apresentarão doença cardiovascular.
Essa diferença protege a leitora de duas distorções comuns: minimizar mudanças relevantes ou transformar fatores de risco em previsões inevitáveis.
Menopausa precoce merece atenção especial?
A idade em que a menopausa ocorre também aparece repetidamente na literatura cardiovascular.
A American Heart Association considera uma idade mais precoce para a menopausa natural um marcador de maior risco cardiovascular. Estudos citados no contexto da declaração científica mostram associação especialmente relevante quando a menopausa acontece antes dos 45 anos.
Uma revisão mais recente sobre a transição menopáusica também destaca que, de maneira geral, quanto mais cedo ocorre a menopausa, maior tende a ser o risco cardiovascular observado posteriormente.
Novamente, “maior risco” não significa destino.
A idade da menopausa é apenas uma parte de um cenário que inclui histórico cardiovascular anterior, tabagismo, pressão arterial, metabolismo, composição corporal, genética, condições de saúde e hábitos ao longo da vida.
O valor dessa informação está em ajudar a construir uma visão mais completa, e não em criar preocupação isolada.
Onde a vitamina K2 entra nessa discussão?
A vitamina K participa de diferentes processos do organismo, incluindo a ativação de proteínas dependentes de vitamina K.
Por causa desse mecanismo, diferentes formas de vitamina K passaram a ser estudadas também em contextos relacionados à calcificação e à saúde vascular.
Mas existe uma distância importante entre um mecanismo biológico, uma mudança em um marcador e a prevenção de doença cardiovascular.
O que foi estudado com MK-7 e rigidez arterial
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado em 2015 avaliou 244 mulheres pós-menopausa saudáveis.
As participantes receberam placebo ou 180 μg por dia de menaquinona-7, conhecida como MK-7, durante três anos.
Os pesquisadores avaliaram diferentes medidas vasculares e observaram melhora em alguns indicadores de rigidez arterial no grupo que recebeu MK-7, com efeitos mais evidentes em mulheres que apresentavam maior rigidez no início do estudo.
Essa pesquisa é interessante, mas precisa permanecer dentro de seus limites.
Ela avaliou MK-7, uma dose específica, uma população específica e marcadores vasculares específicos.
Ela não avaliou qualquer fórmula comercial de suplemento.
O que os estudos ainda não permitem concluir
Uma revisão sistemática e meta-análise de 2023 reuniu 14 ensaios randomizados sobre suplementação de vitamina K e calcificação vascular. Os autores encontraram sinais de possível efeito sobre determinados marcadores, mas também destacaram a necessidade de ensaios mais robustos para confirmar benefícios e eficácia.
Isso significa que, a partir dessas evidências, não podemos afirmar que vitamina K2 previne infarto, AVC ou doença cardiovascular.
Também não podemos pegar um estudo com MK-7 e transferir automaticamente seus resultados para:
- outra forma de vitamina K;
- outra dose;
- outra população;
- uma combinação com outros nutrientes;
- ou um produto comercial específico.
No contexto de menopausa e saúde cardiovascular, K2 é um tema de pesquisa complementar. Não é uma solução isolada para risco cardiovascular.
O que vale observar na saúde cardiovascular nessa fase?
Pensar em menopausa e risco cardiovascular de forma responsável significa olhar para o conjunto.
A transição menopáusica pode ser uma boa oportunidade para revisar a saúde de maneira mais ampla e conversar com um profissional sobre os fatores que fazem sentido no contexto individual.
Dependendo do histórico e da avaliação de cada pessoa, aspectos como pressão arterial, perfil lipídico, glicemia, composição corporal, tabagismo, atividade física, alimentação, sono e histórico familiar podem entrar nessa conversa.
Isso não significa que exista um pacote universal de exames que toda mulher precise realizar simplesmente porque chegou à menopausa.
A Diretriz Brasileira de 2024 e a declaração da AHA reforçam justamente uma visão mais abrangente da saúde cardiovascular durante o climatério e a transição menopáusica.
Há também espaço para olhar para hábitos.
Movimento regular, alimentação adequada, não fumar e acompanhamento dos fatores de risco conhecidos continuam sendo elementos centrais da saúde cardiovascular.
O ponto não é buscar perfeição.
É perceber que o coração também faz parte das conversas sobre cuidado depois dos 40.
O que levar desta conversa
Quando falamos de menopausa e coração, não estamos falando de uma mudança única provocada por um único hormônio.
Estamos falando de um período em que diferentes aspectos da saúde podem se modificar ao mesmo tempo.
A literatura identifica alterações em lipídios, distribuição de gordura corporal e medidas vasculares durante a transição menopáusica. Também mostra que uma menopausa natural mais precoce está associada a maior risco cardiovascular.
Mas marcador não é doença. Associação não é causa. E risco não é destino.
Esse talvez seja o ponto mais importante para transformar informação científica em autonomia: compreender o que merece atenção sem transformar uma fase natural da vida em motivo de medo.
Perguntas frequentes
A menopausa causa doença cardiovascular?
Não é adequado tratar essa relação como causa simples. A transição menopáusica está associada a mudanças em fatores como lipídios, composição corporal e saúde vascular, enquanto idade, histórico familiar, pressão arterial, tabagismo, metabolismo e outros fatores também participam do risco cardiovascular.
O colesterol pode mudar durante a menopausa?
Sim. Estudos longitudinais identificaram mudanças em colesterol e lipoproteínas durante a transição menopáusica, incluindo aumento de LDL-colesterol. A interpretação, porém, depende do perfil cardiovascular completo e não deve se basear em um único marcador isolado.
A menopausa precoce aumenta o risco cardiovascular?
Uma menopausa natural que ocorre em idade mais jovem está associada a maior risco cardiovascular em estudos observacionais e é considerada pela American Heart Association um marcador relevante. Isso não significa que uma mulher necessariamente desenvolverá doença cardiovascular, porque o risco depende de diversos fatores ao longo da vida.
Vitamina K2 protege o coração depois da menopausa?
Os estudos disponíveis não permitem essa conclusão. Um ensaio com MK-7 em mulheres pós-menopausa encontrou mudanças em determinados marcadores de rigidez arterial, mas não demonstrou prevenção de infarto, AVC ou doença cardiovascular. Esses resultados também não podem ser automaticamente transferidos para outras doses, formulações ou produtos.
Referências
El Khoudary SR et al. Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk: Implications for Timing of Early Prevention.
Circulation, 2020. PMID 33251828. Declaração científica da American Heart Association sobre transição menopáusica e risco cardiovascular.
Consultar no PubMed
American Heart Association. Top Things to Know: Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk.
Resumo dos principais pontos da declaração científica de 2020.
Consultar na American Heart Association
Oliveira GMM et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024.
Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2024;121(7):e20240478.
Consultar a Diretriz Brasileira
Knapen MHJ et al. Menaquinone-7 supplementation improves arterial stiffness in healthy postmenopausal women.
Thrombosis and Haemostasis, 2015. PMID 25694037.
Consultar no PubMed
Li T, Wang Y, Tu WP. Vitamin K supplementation and vascular calcification: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials.
Frontiers in Nutrition, 2023. PMID 37252246.
Consultar no PubMed
Samargandy S et al. Abdominal visceral adipose tissue over the menopause transition and carotid atherosclerosis: the SWAN Heart Study.
Menopause, 2021. PMID 33651741.
Consultar no PubMed
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