Artigo: Ela cuida dos pais, dos filhos e do trabalho. Quem cuida dela?

Ela cuida dos pais, dos filhos e do trabalho. Quem cuida dela?
Quando cuidar de todos concentra responsabilidades demais em uma pessoa, dividir as tarefas é diferente de apenas pedir ajuda.
São 6h40 e a lista já começou: separar o remédio da mãe antes de sair, responder a mensagem da escola sobre a prova de amanhã, revisar a planilha que precisa estar pronta às 10h.
O café ainda está quente quando chega outra mensagem.
Dessa vez, é sobre uma consulta que precisa ser reagendada.
Enquanto responde, ela lembra que também precisa confirmar quem buscará o filho mais tarde. A reunião da manhã continua marcada. A compra da casa ainda não foi feita. E existe aquela ligação para o pai que ela prometeu não esquecer.
Nenhuma dessas tarefas, isoladamente, parece extraordinária.
O peso aparece quando quase todas chegam ao mesmo lugar.
Essa situação é apenas ilustrativa. Não representa todas as mulheres depois dos 40 e nem todas as famílias. Mas ajuda a colocar em palavras uma situação que pode surgir quando cuidado com filhos, atenção aos pais, trabalho e administração da vida cotidiana passam a disputar o mesmo tempo, principalmente quando grande parte da responsabilidade por fazer tudo funcionar fica concentrada em uma única pessoa.
Isso é diferente de simplesmente estar com a agenda cheia.
Estamos falando de sobrecarga de cuidado.
E talvez a pergunta mais importante não seja “como ela consegue dar conta de tudo?”, mas outra:
Por que tanta coisa depende de ela dar conta?
Quando o cuidado começa a ocupar todos os espaços
Há uma expressão que ajuda a contextualizar parte dessa experiência: geração sanduíche.
Ela descreve pessoas que oferecem algum tipo de cuidado ou apoio tanto a uma geração mais velha quanto a uma mais jovem. Não é uma faixa etária, não é uma condição exclusivamente feminina e não depende necessariamente de todos morarem juntos.
Também não inclui carreira em sua definição formal.
O trabalho entra na conversa porque essas responsabilidades familiares muitas vezes coexistem com a vida profissional e acabam disputando tempo, disponibilidade e atenção.
Se você quiser entender melhor o que é geração sanduíche, temos um conteúdo específico sobre esse tema.
Aqui, a pergunta é outra.
Não apenas quem está sendo cuidado, mas em quem o cuidado está se concentrando.
Quando todo mundo sabe para quem ligar
Imagine que, às 11h47, o telefone toca.
É alguém da família querendo saber qual foi o horário da consulta.
Pouco depois, chega uma mensagem perguntando se um boleto já foi pago.
À tarde, alguém precisa resolver uma mudança na agenda do filho.
No fim do expediente, outra pessoa pergunta o que será feito no fim de semana com os pais.
Ninguém combinou formalmente que ela seria responsável por tudo isso.
Ainda assim, todos sabem a quem perguntar.
Esse é um aspecto importante da sobrecarga de cuidado: nem toda responsabilidade aparece como uma tarefa longa ou fisicamente exigente.
Às vezes, ela aparece como ser a pessoa que lembra de tudo, que sabe, que agenda, que percebe antes, que recebe a ligação quando algo muda ou que precisa encontrar a solução quando ninguém sabe exatamente o que fazer.
Essa cena também é ilustrativa. A intenção não é dizer que toda mulher vive assim, mas mostrar como responsabilidades podem se acumular mesmo quando várias pessoas “ajudam” em momentos pontuais.
Porque executar uma tarefa e carregar a responsabilidade por ela não são necessariamente a mesma coisa.
Por que tantas mulheres se conectam com essa história?
A geração sanduíche não é exclusivamente feminina.
Mas, quando olhamos para a distribuição de tarefas, responsabilidades e cuidados no Brasil, existe uma desigualdade importante.
Segundo dados do IBGE referentes a 2022, mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos. Entre os homens, a média era de 11,7 horas.
Esses números não medem quantas brasileiras pertencem à geração sanduíche.
Eles mostram outra coisa: no Brasil, o trabalho doméstico e de cuidado ainda é distribuído de maneira desigual entre mulheres e homens.
Isso importa porque a divisão do cuidado não acontece no vazio.
Ela é influenciada pela organização de cada família, renda, disponibilidade de serviços, relações de trabalho, composição familiar e também pelas expectativas construídas ao redor de quem costuma assumir determinadas responsabilidades.
Por isso, falar sobre mulheres 40+ e cuidado não significa dizer que existe uma experiência feminina universal.
Significa reconhecer um contexto em que muitas delas podem encontrar algo familiar nessa conversa.
Sobrecarga de cuidado não é falta de organização
Diante de uma rotina cheia, uma das primeiras respostas costuma ser:
“Precisa se organizar melhor.”
Agenda compartilhada, lista de tarefas, aplicativos e planejamento semanal. Tudo isso pode ser útil, mas há um limite para o que organização consegue resolver.
Se a mesma pessoa continua responsável por acompanhar os pais, administrar as necessidades dos filhos, trabalhar e coordenar grande parte da rotina doméstica, uma agenda mais organizada pode até ajudar a colocar tudo em ordem, mas não redistribui as responsabilidades.
Pesquisas ajudam a mostrar por que o problema não cabe apenas na produtividade individual.
Um estudo nacional realizado nos Estados Unidos comparou adultos que cuidavam de pais mais velhos e também de filhos menores com outros cuidadores de adultos mais velhos. Os cuidadores sanduíche apresentaram maior participação no trabalho remunerado e relataram com maior frequência dificuldades financeiras e emocionais relacionadas ao cuidado, além de maior sobrecarga percebida no papel de cuidador.
Esses resultados são norte-americanos e pertencem à população específica estudada. Não devem ser transferidos automaticamente para mulheres brasileiras.
Mas ajudam a revelar uma questão importante: quando papéis se sobrepõem, dizer apenas “organize melhor seu tempo” pode ignorar aquilo que realmente está sendo exigido daquela pessoa.
Dividir cuidado não é o mesmo que receber ajuda
Aqui existe uma diferença que vale explorar.
Imagine duas frases:
“Meu irmão me ajuda levando nossa mãe ao médico quando eu peço.”
e
“Meu irmão é responsável pelas consultas da nossa mãe.”
Na primeira, a responsabilidade principal ainda pode continuar com uma pessoa: ela lembra da consulta, organiza o horário, pede ajuda, confirma se deu certo e acompanha o que precisa acontecer depois.
Na segunda, parte da responsabilidade mudou de lugar.
É essa diferença que queremos destacar quando falamos em divisão do cuidado.
Receber ajuda pode aliviar tarefas.
Compartilhar responsabilidade também redistribui parte do planejamento, acompanhamento e tomada de decisão.
Isso não significa que toda família consiga dividir tudo igualmente.
Há irmãos que moram longe. Pessoas com jornadas profissionais diferentes. Famílias sem recursos para contratar apoio. Relações difíceis. Situações de saúde que exigem uma pessoa de referência. Famílias monoparentais. Redes pequenas ou praticamente inexistentes.
Por isso, “divida as responsabilidades” não deve virar mais uma cobrança.
É uma reflexão sobre quem está sustentando cada responsabilidade e o que realmente pode deixar de depender de uma única pessoa.
O que pode ser compartilhado de verdade?
Responsabilidades, não apenas tarefas
Em vez de pensar somente “quem pode fazer alguma coisa por mim?”, pode ser útil olhar para áreas inteiras de responsabilidade.
- Quem acompanha consultas?
- Quem resolve questões da escola?
- Quem administra compras recorrentes?
- Quem conversa com profissionais ou serviços quando algo muda?
- Quem organiza informações que os outros integrantes da família precisam saber?
A ideia não é criar uma divisão matematicamente perfeita.
É tornar visível aquilo que muitas vezes simplesmente foi se acumulando.
Tornar a divisão mais concreta
“Qualquer coisa, me chama” parece apoio.
Mas ainda deixa para a pessoa sobrecarregada o trabalho de perceber o que precisa ser feito, escolher quem pode ajudar, pedir, explicar e acompanhar.
Uma divisão mais concreta pode ser diferente:
“Eu fico responsável por isso.”
“Você assume aquilo.”
“Se houver mudança nessa área, fale diretamente com essa pessoa.”
Essa é uma distinção editorial, não uma fórmula comprovada para todas as famílias.
Seu valor está em mudar a pergunta de “quem pode me ajudar?” para “o que não precisa continuar sob minha responsabilidade?”
Apoio também pode vir de fora da família
Nem toda rede de cuidado precisa ser composta exclusivamente por parentes.
Dependendo das condições de cada pessoa, serviços formais de cuidado, escola, profissionais, transporte, redes comunitárias e outros recursos podem fazer parte da estrutura.
A revisão publicada em 2025 sobre cuidadores sanduíche identificou flexibilidade profissional, suporte do parceiro, conexão social e acesso a serviços formais de cuidado entre fatores relevantes na relação entre vida familiar e trabalho.
O acesso, porém, é desigual.
Por isso, uma solução disponível para uma família pode ser inviável para outra.
Trabalho também faz parte dessa conversa
O cuidado não desaparece quando começa o expediente.
Uma pesquisa norte-americana com cuidadores familiares e outros cuidadores não remunerados de adultos mais velhos avaliou faltas ao trabalho e redução de produtividade durante o expediente associadas ao cuidado.
Entre os cerca de 8,8 milhões de cuidadores empregados representados na análise, 23,3% relataram absenteísmo ou redução de produtividade no trabalho relacionada ao cuidado durante um período de um mês.
Esse estudo não avaliou exclusivamente pessoas da geração sanduíche e não é um dado brasileiro.
Ainda assim, mostra por que separar completamente “família” e “trabalho” nem sempre corresponde à vida real.
Às vezes a pessoa está na reunião, mas também está esperando o resultado de um exame do pai.
Está terminando uma planilha enquanto resolve uma mensagem da escola.
Está no escritório tentando descobrir quem consegue acompanhar uma consulta.
A revisão de 2025 sobre cuidadores sanduíche também encontrou relações entre conflito trabalho-família e aspectos como horas de trabalho, flexibilidade, suporte no ambiente profissional e apoio do parceiro. Os autores destacam ainda o papel de ambientes profissionais mais flexíveis e de serviços formais de cuidado.
Isso desloca parte da conversa.
Nem toda dificuldade pode ou deve ser resolvida apenas dentro de casa.
E onde ela entra nessa lista?
Talvez seja tentador transformar esta seção em mais uma lista.
- Durma oito horas.
- Faça exercício.
- Separe um tempo para você.
- Medite.
- Organize melhor sua semana.
Mas existe um risco nisso: transformar o autocuidado em mais uma responsabilidade para quem já está responsável por coisas demais.
A pergunta “e onde você entra nessa lista?” não precisa resultar imediatamente em uma nova tarefa.
Pode começar simplesmente pela percepção de que aquela pessoa também tem necessidades, limites, compromissos próprios e coisas que gostaria de preservar na vida.
Às vezes, criar espaço para si não começa acrescentando algo à rotina.
Começa perguntando o que pode sair das próprias mãos, o que pode ser decidido junto ou o que não precisa mais depender exclusivamente dela.
Autonomia, nesse contexto, não significa conseguir fazer tudo sozinha. Pode significar justamente não precisar.
Quem cuida de quem cuida?
Talvez a resposta não seja uma única pessoa. Pode ser um parceiro, um irmão, uma filha adulta, um amigo, uma rede de apoio, um serviço, uma empresa que oferece flexibilidade, uma política pública.
E, frequentemente, uma combinação imperfeita de várias dessas coisas.
Também existem situações em que essa rede é pequena, distante ou insuficiente.
Por isso, perguntar “quem cuida dela?” não deve servir para concluir automaticamente que ninguém cuida.
Serve para tornar visível uma questão que costuma passar despercebida:
Quando muita gente depende de uma mesma pessoa, de quem ou do que essa pessoa pode depender?
Talvez seja essa a conversa que precisa vir antes de qualquer tentativa de “dar conta de tudo”.
Não é sobre fazer tudo caber na rotina, mas sobre não deixar tudo concentrado no mesmo lugar.
Perguntas frequentes
O que é sobrecarga de cuidado?
A expressão pode ser usada para descrever situações em que responsabilidades de cuidado, organização e apoio se acumulam de forma intensa sobre uma pessoa. Ela não indica uma experiência única nem significa que toda pessoa que cuida de familiares necessariamente se sinta sobrecarregada.
Sobrecarga de cuidado e geração sanduíche são a mesma coisa?
Não. Geração sanduíche descreve uma configuração em que alguém oferece apoio a uma geração mais velha e outra mais jovem. Já a sobrecarga de cuidado diz respeito à concentração ou ao peso das responsabilidades. Uma pessoa pode fazer parte da geração sanduíche sem necessariamente relatar sobrecarga, e situações de sobrecarga também podem ocorrer fora dessa configuração.
Por que falar especialmente de mulheres?
O cuidado não é exclusivamente feminino. Entretanto, dados do IBGE mostram que, no Brasil, mulheres dedicam em média mais horas aos cuidados de pessoas e afazeres domésticos do que homens. Esse contexto ajuda a entender por que muitas mulheres podem se reconhecer na discussão, sem transformar essa experiência em uma regra para todas.
Dividir tarefas é suficiente para dividir o cuidado?
Nem sempre. Como reflexão editorial, vale distinguir executar uma tarefa de assumir responsabilidade por uma área. Uma pessoa pode receber ajuda em atividades pontuais e ainda continuar responsável por perceber necessidades, planejar, delegar e acompanhar tudo o que acontece.
Como compartilhar mais responsabilidades?
Não existe uma fórmula única. Pode ser útil identificar quais responsabilidades estão concentradas, tornar a divisão mais explícita e considerar tanto a rede familiar quanto outros apoios disponíveis. O que é possível depende da composição familiar, trabalho, renda, serviços disponíveis e necessidades de cada situação.
Referências
IBGE — Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil / PNAD Contínua 2022.
Em 2022, mulheres dedicavam em média 21,3 horas semanais a cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos, contra 11,7 horas entre homens.
Consultar no IBGE
Lei L, Leggett AN, Maust DT. A national profile of sandwich generation caregivers providing care to both older adults and children.
Journal of the American Geriatrics Society, 2023. PMID 36427297.
Consultar no PubMed
Fakeye MBK et al. Caregiving-Related Work Productivity Loss Among Employed Family and Other Unpaid Caregivers of Older Adults.
Value in Health, 2023. PMID 35973924.
Consultar no PubMed
Honda A, Ono M, Nishida T, Honda S. Balancing and Conflict Between Work and Family Life of Sandwiched Caregivers: A Scoping Review.
Safety and Health at Work, 2025. DOI 10.1016/j.shaw.2025.04.004.
Consultar estudo
Aviso educativo: este conteúdo apresenta dados populacionais e reflexões editoriais sobre cuidado e vida depois dos 40. Experiências familiares, disponibilidade de rede e acesso a serviços variam amplamente entre pessoas e contextos.

